Após anos de estabilidade no regulamento do Campeonato Brasileiro (algo muito raro em suas 39 edições) uma informação dos últimos dias traz preocupação. A detentora dos direitos de tranmissão das partidas pela TV teria demonstrado um “desejo” em mudar o regulamento da competição a partir de 2011, abolindo os pontos corridos e voltando ao mata-mata.
O “monstro” proposto pela Globo Esporte, conforme o blog de Juca Kfouri, seria o seguinte:
Torneio em pontos corridos, em dois turnos, todos contra todos. Os três primeiros garantem vagas na Libertadores. Para se apurar o campeão, no entanto, um mata-mata entre os oito primeiros. Caso um dos três primeiros da fase dos pontos corridos ganhe o título, o quarto fica com a outra vaga da Libertadores. Caso o campeão venha a ser o quinto, o sexto, o sétimo ou o oitavo, este fica com a vaga.
Entendeu? Formulismo puro.

Douglas Costa no jogo contra o Botafogo em 2008. Os cariocas seriam os adversários do Tricolor nas quartas-de-final no ano passado. (Foto: site do Grêmio)
Pela manutenção dos pontos corridos
O sistema de pontos corridos permitiu ao Brasileirão atingir um estágio de maturidade rapidamente pela estabilidade que promove e a possibilidade de planejamento para clubes e torcedores (venda antecipada de ingressos, atividades garantidas até dezembro, organização de viagens, por exemplo). Segundo o ranking da Federação Internacional de História e Estatística do Futebol (IFFHS), o certame é o quinto melhor campeonato nacional de clubes do mundo, pela paridade dos clubes em disputa e a quantidade de equipes com chances de título. Na Itália dificilmente escapa de Milan, Inter ou Juve. Na Espanha, é Real ou Barça. Em Portugal, apenas Boavista e Belenenses, com uma taça cada um, derrotaram o trio de ferro Benfica, Porto e Sporting.
A principal vantagem dos pontos corridos é, sem dúvida, premiar o clube mais regular da temporada. Ainda que neste ano o campeão deverá ser o menos irregular.
Esse um ponto que derruba por terra o argumento que a atual fórmula oferece poucas emoções ao torcedor por não ter a disputa de uma final. Mas apenas em três edições o campeão já estava definido na última rodada. Sem falar na movimentação em todas as torcidas, e não apenas nas dos dois clubes da finalíssima, pela classificação aos torneios intercontinentais e para evitar a queda à Série B.

A bonita festa da Torcida Tricolor na “final” de 2008. (foto: site do Grêmio)
Quer uma final? Pergunte-me como!
Ainda assim, seria possível fazer uma final no Brasileirão de pontos corridos. Como? Caso o campeão do 1º turno fosse diferente do líder ao final do torneio, as duas equipes jogariam duas partidas para definir quem leva a taça.
E não sugiro isso só porque os clubes gaúchos foram os únicos a terminar a primeira metade na frente e depois sucumbiram. Faz parte do mérito. Afinal, se um time foi o melhor das primeiras 19 rodadas, o que aconteceu nas outras 19 que não manteve sua regularidade? E porque o campeão ao final do segundo turno sumiu no início do torneio?
Os pontos não seriam zerados ao final do 1º turno, seguiria a pontuação normal. Jogaria a segunda partida da final em casa o clube que tivesse a melhor pontuação separadamente por turno. Exemplo: o clube A ganhou o primeiro turno com 30 pontos. Já o B, no segundo turno, somou 28. Logo, o clube A decidiria diante da sua torcida. Obviamente, caso a equipe ganhe os dois turnos, está definida a questão.
Já imaginaram? Em 2008 teria acontecido um Grêmio x São Paulo, com o primeiro jogo no Olímpico e o segundo em São Paulo. Uma reedição da final de 1981, inclusive o fim da história, certamente.
Uma questão “mais embaixo”
Um ponto que merece uma revisão é o rebaixamento. A queda de quatro clubes da Série A para o ascenso de quatro clubes da B prejudica o nível técnico da competição. Esse número foi adotado a partir de 2006. Naquele ano, o América-RN subiu em quarto. No ano seguinte, terminou na lanterna com apenas 17 pontos, pior aproveitamento de todos os campeonatos de pontos corridos. Para se ter uma ideia, o vice-lanterna Paraná terminou o torneio com 41 pontos, 24 a frente dos potiguares.
Em 2007, foi legal a queda do Corinthians na 17ª posição. Mas a Portuguesa subiu em terceiro e voltou rapidinho pra segundona.

Tem coisas que são sempre boas de serem revistas.
Claro que a questão do rebaixamento envolve mais a competência e cara-de-pau do clube, jogadores e dirigentes, em evitar a queda do que ter um nome e ser considerado um “grande” ou por ter torcida. Mas este ano (até a rodada na qual este post foi escrito) o Botafogo estaria caindo pra dar lugar ao Atlético Goianiense. Com todo respeito ao mérito dos goianos, que já foram uma potência dentro de seu estado.
Dois seria o número ideal. Mas vamos a outras propostas, novamente dentro da ideia de ter uma “final”:
1) “Torneio da morte” entre os quatro piores do primeiro turno e os quatro piores do segundo
No mesmo estilo da disputa pelo título. Quem tiver figurado no Z-4 nos dois turnos, tem mais que cair direto mesmo. Esse formato era comum antigamente.
2) Play-out
Os dois últimos da A caem direto para a B, assim como os dois primeiros da segundona sobem sem escalas. Já o 18º da A jogaria contra o 3º da B e o 17º da A contra o 4º da B em duas partidas pelas outras duas vagas na primeira divisão. O mando de campo no segundo jogo seria o time da Série A, por motivos óbvios.
Esse modelo é adotado na Argentina (onde existem uns cálculos estranhos para o rebaixamento, mas isso não vem ao caso), chamado por lá de “Promoción”. Em julho passado, os dois da A conseguiram se manter, em quatro partidas a “cancha llena”. O Rosario Central perdia em casa para o Belgrano e ia aos penais, mas conseguiu empatar. Já o Gimnasia La Plata tomou três do Atletico Rafaela no primeiro jogo e só conseguiu devolver o mesmo placar quando estava com nove em campo e com dois gols do reserva Franco Niell aos 43 e 46 do segundo tempo, de cabeça. Detalhe: o dito cujo tem 1,62m de altura! Quer mais emoção que isso?

Jogadores do Gimnasia La Plata comemoram com uma tentativa de haka a permanência na primeira divisão argentina. (Foto: Site Gimnasia)
Até o presidente da CBF está contra
Ricardo Teixeira, presidente da CBF, se mostrou contrário a proposta pela TV. Alguns vão pensar “se o Teixeira é contra, é porque deve ser algo bom”. Não neste caso.
Talvez fosse só uma questão de bastidores que resolveram largar pra ver se o povo aprovava. Talvez seja só um boato sem sentido. Quase toda mídia está contra. Grande parte dos dirigente não para de elogiar o estável regulamento atual. Mas a questão financeira, com a dependência dos clubes pela verba das transmissões, pode ser a maior influência para a tomada de decisão. “Faz como eu quero, ou não tem din-din”. E aí, como fica?