Parafraseando o Grande García Márquez, o jogo de ontem foi a síntese disso, o amor da torcida em contraste com a cólera da mesma, afinal em campo desfilava seu futebol, por vezes desdenhante, o grande algoz da torcida celeste. Porém, ao que tudo indica, Ronaldo acusou o golpe, a cólera vinda das arquibancadas o fez anular-se na intermediária esquerda de campo, ali sofreu apupos, ali chamaram-no de pilantra, ali desapareceu o seu encanto e sua magia, foi apenas mais um.
Ainda assim os rubro-negros saíram na frente, fizeram dois gols, tudo parecia conspirar para que Ronaldo, pela terceira vez, enchesse os corações celestes de tristeza. Mas não, jamais, o amor da torcida prevaleceu, ela, a torcida, despertou o time, foi vibrante, foi superior, foi o ânimo que faltava dentro de campo. André Lima, ainda no primeiro tempo, num giro em que sua força física fez-se superior, chutou no canto do goleiro rubro-negro, era o início da reação, porém era tambem o término do primeiro tempo.
No intervalo, o burbrinho da desconfiança rondava as arquibancadas e cadeiras do Olímpico, o cochicho da desconfiança, o medo desfilava em vestes triunfais pelas escadarias. Mas havia a Esperança, aaaah a Esperança, essa moça de belas curvas, com decotes generosos e pernas a mostra, ela estava diante dos olhos de cada torcedor gremista, oferecendo-se, provocando e fazendo sonhar com suas carícias.
Mal começava o segundo tempo e o Grêmio, outra vez com André Lima, chegava a igualdade, a Esperança, insinuava-se cada vez mais, caminhava remexendo os quadris de forma sensual, agitava a todos nas arquibancadas, era desejada e assediada, estava ali, ao alcance de todos, mas ainda a um passo utópico de distância.
Quando Douglas fez o gol da virada, pronto, o frenesi foi instaurado nas arquibancadas, pulos, gritos, loucura extrema, juras de amor eterno, e a Esperança transformou-se em uma musa, ainda mais bela, ainda mais provocante, ainda mais sensual, a Realidade, aaaah quem não a ama? Quam não a deseja? Quem nunca sonhou com ela, em noites quentes do verão? Quem nunca a teve que atire a primeira pedra. A realidade, saciou o desejo de todos os Gremistas.
E quando Miralles marcou o quarto gol, a torcida explodiu, veio abaixo, instaurou-se um frenesí orgásmico que levou ao delírio toda a massa ululante de gremistas que compareceram no Monumento de concreto, finalmente a Realidade era dos gremistas, linda e apaixonante como sempre fora nos sonhos mais secretos de cada um presente no estádio, a comemoração parecia um ritual, gritos, urros, choro, a torcida estava em transe, o time estava em transe, era um vitória com uma virada histórica, dessas que somente quem ama de verdade pode acreditar.
Por fim, Ronaldo, saiu de campo, dizendo que os gritos da torcida não eram nada! Ronaldo, em toda a sua molecaem, voltou a ser criança, sentiu o golpe, mas não foi homem o suficiente para admitir, foi, mais uma vez, o moleque!